Hoje recebi uma daquelas notícias que surgem de repente, sem se esperar e que nos caem em cima como um raio destruindo as nossas frágeis crenças e esperanças. Hoje percebi que a vida é curta demais, injusta demais. Hoje, que estava chateada com o rumo patético da minha vida, descobri quão fútil estava a ser.
Lembro-me de receber uma chamada de uma amiga logo depois do almoço. Ela perguntou como eu estava e comecei a desbobinar todas as minhas preocupações superficiais, todas as minhas angústias estúpidas e desapontamentos mais recentes. Após um enorme monólogo da minha parte, fechei a boca. Ela continuou em silêncio, o que era estranho. Foi aí que percebi que alguma coisa estava errada.
-O que se passa? – perguntei receosa mas não estava de maneira nenhuma preparada para o que vinha depois. Mais alguns segundos de silêncio e então ela verbalizou as palavras que me têm atormentado o dia inteiro e me feito derramar lágrimas como há muito não fazia.
-O César teve um AVC. Está paralítico e perdeu a fala. OS médicos dizem que é irreversível.
Nesse momento foi como se o mundo me tivesse caído na cabeça. Conheço o César desde… desde sempre. Sempre foi um miúdo um pouco parvo, muito brincalhão mas com umas ideias um tanto estranhas. Lembro-me de quando éramos crianças e eu achar repugnante o facto dele ter conseguido comer terra só para ganhar uma aposta. Lembro-me de ele gozar comigo porque eu era mais nova e era rapariga. Lembro-me de quando já éramos adolescentes e eu achar que ele era demasiado patético para uma rapariga que tentava entrar para as classes altas da sociedade adolescente socializar. Depois crescemos mais um pouco e somos amigos, bons amigos.
E do nada, aquele rapaz de apenas 23 anos viu-se com a vida destruída. A parte de ter ingerido uma boa quantidade de terra quando criança, ele sempre foi uma pessoa saudável. Como é que assim, do nada, tem um AVC e perde a locomoção e a fala. Logo o César que adora correr e jogar futebol e é o maior tagarela que conheço?
Porquê ele? Sei que estas coisas acontecem, e ninguém está a salvo mas… é difícil lidar com isto quando acontece a alguém que está tão próximo de nós.
Queria poder estar com ele, poder dizer que vou lá estar por ele, sempre. Apesar da distância, meu coração, minha alma e minha esperança está com ele.
E enquanto me caem as lágrimas pela face abaixo, lembro-me de todas as brincadeiras de crianças, todas as discussões de adolescentes, todas as conversas de pseudo-adultos.
Hoje, as palavras perdem-se na mágoa, hoje, não consigo escrever, não há maneira de descrever o que sinto, não há maneira de tentar arranjar uma explicação para o que aconteceu, e não há maneira de aceitar que realmente aconteceu. Encontro-me a pensar se não terá sido uma brincadeira de muito mau gosto.
Hoje, todos os meus pensamentos estão com o César. E gostaria que todas as minhas forças estivessem com ele. Hoje só quero dizer: estou contigo César, e estarei sempre para o que precisares. Apesar da distância física, todo o meu ser está contigo.
