Com o aproximar da minha viagem de regresso á terra natal para passar as festas, os pesadelos voltam a me assombrar. Acontece sempre isto e a cada dia torna-se pior. Pela minha cabeça começam a passar perguntas: o que aconteceu aos meus amigos quando estive fora? Será que mudaram? Será que… ainda tenho o meu lugar no meio deles? Será que a distância não os fez fecharem o círculo tirando o meu lugar nele? É um pensamento que me assusta sempre que penso nele. E os meus pais? Voltar para perto deles será tê-los novamente a controlar cada passo que dou quando passei os últimos meses a ser a dona do meu nariz sem dar explicação a ninguém? Perderei a minha liberdade quando lá chegar?
E depois vêm as memórias de ti. És o pensamento que mais me assusta. Voltar para casa significa voltar a caminhar pelas ruas por onde passamos de mãos dadas, significa rever paisagens que admiramos abraçados, significa recordar os momentos que foram e já não são. Fico petrificada de medo de mais uma vez descobrir que não é apenas nostalgia que sinto mas que o sentimento que por tanto tempo lutei por abafar afinal não morreu.
Na minha vida já me envolvi com muitas pessoas, relações rápidas, relações longas, relações vazias, relações físicas, relações sentimentais demais, até obsessões já vivi. No entanto, de todas elas só tu permaneceste. Namorei quase dois anos com uma pessoa e ele não me afecta da maneira que tu o fazes. Tu, que nunca foste constante na minha vida, marcaste-me mais do que qualquer outro. Parece que ao longo da minha vida me apaixonei por ti várias vezes. Quando sais dela, acabo encontrando outra pessoa, outro amor, mas, talvez por coincidência, é sempre quando mais preciso de amor que tu voltas a entrar na minha vida e apaixono-me novamente. Só que da última vez que foste embora foi diferente. Desta vez não levaste o que eu sentia contigo. O amor que sentia ficou e magoou não te ver, não te ter, não saber de ti.
Já muito tempo passou desde aquela tarde em que o destino fez-nos reencontrar na ruelazinha da cidade, á frente das floristas de rua, numa tarde de Agosto em que eu andava perdida dentro de mim, procurando uma luz no meu caminho escuro, e eis que tu apareceste. Também já passou muito tempo desde que sem dizer adeus, nos despedimos no final da tarde, nenhum a querer sequer falar para não magoar mais do que já magoava, ambos a tentar sorrir para não tornar as coisas mais difíceis para o outro e demos o último beijo, um beijo que muito tempo depois ainda conseguia sentir nos lábios. Foi difícil sair do carro em silêncio, fechar a porta e dirigir-me ao portão de casa, ver o teu carro parado durante segundos e de repente como se quisesses fugir, arrancaste com tanta velocidade que tive medo por ti. Mais tarde soube que também estavas dividido entre sair do carro e abraçar-me de novo ou sair dali para não te magoares mais.
Entretanto nossas vidas seguiram em frente mas… sempre que volto á ilha rezo para não te encontrar. Sinto-me bem na ignorância do que sinto por ti, gosto de acreditar que ultrapassei o que sentia e que estou feliz por teres encontrado alguém mas no fundo tenho medo de perceber que é ilusão, que é uma mentira que inventei para conseguir viver sem pensar em ti. Já me apaixonei entretanto, várias vezes, mas são paixões fugazes, que desaparecem em poucos dias. Tenho medo que me tenhas roubado o coração de vez… ou o destino que nos separou o tenha destruído para sempre…
Ás vezes fecho os olhos e consigo recordar todos os momentos que passamos juntos. O meu primeiro beijo foi contigo, o meu primeiro baile foi contigo, na minha grande peça de teatro estavas tu ao meu lado, representando e entendíamo-nos bem em palco. Estava eu ao teu lado quando o teu melhor amigo deixou este lugar para subir aos céus. Estavas tu comigo quando tudo á minha volta estava a ruir. Tu olhavas para mim como se eu fosse perfeita, fazias com que eu esquecesse todas a imperfeições que me atormentavam. Estiveste comigo quando eu estava perdida de mim mesma, quando me perdi entre festas e álcool, típico dos adolescentes, fizeste-me colocar a cabeça no lugar. Estavas ao meu lado quando meu coração parecia estar tão dividido quanto um puzzle por fazer e estiveste lá para o concertar quando o destruíram, e eu estive lá sempre para te oferecer o meu ombro para chorares, para te dar o empurrão se sempre te faltava, para te apoiar e te chamar á terra, para te criticar quando necessário, eu era a calma para as tuas tempestades, era eu que conseguia fazer-te sorrir quando a fúria tomava conta de ti. Por várias vezes entraste e saíste da minha vida, mas parecia que sempre que precisava lá estavas tu, sempre que sentia que faltava algo, tu aparecias e fazias-me sentir completa.
E agora, agora tenho medo que voltes a entrar na minha vida porque agora será apenas como amigo, como algumas das vezes que voltaste, mas agora, agora a amizade não é suficiente para agradar meu coração. Por isso agora, mesmo sentindo novamente que me falta algo na vida, não quero que voltes porque se voltares tem que ser para sempre e o sempre não existe entre nós. Agora, não me quero apaixonar por ti, outra vez!
Foram tantos os que me beijaram
Foram tantos os que me abraçaram
Foram tantos os que beijei
Tantos os que amei
Mas tu, que rude contraste
Tu que tão pouco me beijaste
Tu que quase nem abracei
Só tu nesta alma ficaste
De todos os que amei